PLÁGIO É CRIME... NÃO COPIE, NÃO ALTERE! RESPEITE OS DIREITOS DO AUTOR!!!

quarta-feira, 10 de abril de 2019

CAPITULO I:



Bom Filho a casa torna.
Às onze horas da manhã de um dos últimos dias de outubro piso novamente em solo gaúcho. Olhando aquele céu azul, aquele sol que iluminava todo o meu Rio Grande do Sul senti uma angústia, uma sensação de fracasso, pois da última vez em que estive ali era apenas uma criança com sonhos bobos ...

Antes queria descobrir o mundo, queria amar e ser amada de uma maneira única, queria montar minha família com a mulher que eu tanto amava, ... Bem aquela história de uma casa azul, com portas, janelas e cerca pintadas de branco, flores espalhadas pelo jardim, um cachorro companheiro, e algumas crianças me chamando de mãe. E quem seria o pai? Esse estaria escondido na fisionomia de Sandra. Uma bela mulata de olhos cor de caramelo, cabelo comprido, corpo perfeito, andar sensual e uma voz de telefonista, tão suave que me levava à loucura. Na verdade, enlouqueci não somente pela voz, pelo corpo, mas pelo desafio a vida. ... Sandra vivia sem medo, se habituava a qualquer vida, vivia rindo, não somente nas situações mais impróprias, mas dos tombos que levava.

Sempre pensei que ela tivesse um caráter intocável, que dinheiro nenhum a compraria, que assim como eu, estava disposta a recomeçar do zero e formar uma família, ter seu porto seguro. Mas infelizmente me enganei na primeira semana que pisamos em solo estrangeiro.

O país era Nova Zelândia, terra belíssima, com grandes oportunidades de novas amizades, novos trabalhos, e principalmente enriquecermos nosso currículo, nossos conhecimentos, afinal éramos apenas duas meninas recém formadas em letras pela universidade federal do Rio Grande do Sul.

Lá chegando fomos ao encontro de Carlos, um gaúcho que assim como nós estava à procura de uma nova vida. Ele era, e é, um verdadeiro cavalheiro, nos ajudou em tudo, desde a arrumar lugar para ficarmos, até como guia turístico. Seus amigos eram de vários países, todos muito legais, festeiros e ao mesmo tempo estudantes.

Dentre eles estava Diana, uma inglesa que se encantou pela minha morena e com o poder de meia dúzia de palavras a conquistou me deixando completamente abandonada em uma terra desconhecida.

Mesmo com a dor da perda de um grande amor, permaneci por lá o tempo previsto, trabalhei em um restaurante lavando pratos, preparando sobremesas e aperfeiçoando meu inglês. Sandra nunca mais a vi estava correndo o mundo com sua nova namorada podre de rica.

***

Carregando minhas malas em direção ao ponto de ônibus interno do aeroporto, observei que uma bela loira me acompanhava com o olhar, mas infelizmente aquele não seria o momento de pensar em nada disso. Queria apenas chegar até a rodoviária e ir em direção a minha cidade natal, na verdade, estava mais preocupada com o fato de como eu seria recebida por minha família, afinal fazia sete anos que estava fora.

Seis horas depois cheguei à rodoviária de Rio Grande, vi somente pessoas desconhecidas, minha família não estava a minha espera, acho que pelo fato de não saber que estava voltando e dessa vez pra ficar.

Meio desajeitada caminhei até o taxi e insegura passei o endereço da casa da minha avó. No trajeto vi a diferença da cidade, carros novos pra todo o lado, pessoas caminhavam apressadas pelas ruas, lojas conhecidas nacionalmente, ...

O taxi pára em um semáforo há menos de trezentos metros da casa da vó e analisando as mudanças percebo que na esquina havia um pet shop “Apaixonados por Patas”. Parada à porta do estabelecimento estava uma bela mulher com um sorriso encantador, que me chamou a atenção. Ela conversava com uma senhora que infelizmente não conseguir reconhecer.

****

Em frente à fachada da casa sentia minhas pernas tremerem, mas com toda coragem inexistente paguei a corrida e fiquei parada por alguns minutos em frente analisando cada detalhe que não tinha mudado em quase nada. As cores permaneciam iguais. Porta e janela marrons, parede revestida com pedras.

Com muito medo apertei a campainha, silêncio absoluto...

-- Ora, ora. Quem é vivo sempre aparece! – Ouvi a voz vinda de trás de mim.
-- Vó, que bom vê-la! – falei vendo aquela mesma senhora frágil que estava conversando com a tal mulher na frente do pet.
-- Digo o mesmo minha filha, que saudades que estava sentindo de ti. – frase acompanhada de um belo e apertado abraço.
-- Oh vó que delícia. Como é bom sentir teu cheiro de novo e receber esse imenso carinho.
-- Mas vamos entrar minha filha. – comentou abrindo a porta e indicando o caminho para que eu entrasse primeiro.
Assim que entramos, percebi que nada mudou, a não ser a televisão da sala que era de ultima geração. Guardanapinhos de crochê enfeitavam a estante e combinava com os do sofá, a limpeza estava impecável, o cheiro de jasmim exalava pela casa, e misturava com o cheiro de café novo... Nossa que delícia era estar em casa!
-- Ai vó eu preciso de um pouquinho desse café.
-- Então tomaremos minha linda. Eu também preciso de um e com urgência. – comentou sorrindo e me olhando com o olhar de um adolescente apaixonado.

Acompanhando-a num delicioso café ficamos horas ali comendo e conversando. Naquele momento não sabia se eu estava com fome, ou se era apenas saudades de comer coisas preparadas pela vó Maria. Falamos um pouquinho de cada um, queria saber de todos, mas principalmente de Isabella, minha irmã mais nova. Quando saí de Rio Grande ela tinha apenas sete anos, e agora já estava uma moça com 15, cursava o segundo ano do ensino médio e namorava um colega de escola.
-- Tua mãe é que desapareceu pelo mundo Clau. Tem uns bons dois anos que não a vejo, sequer manda um telegrama. – falou minha véinha, com os olhos cheios de lágrimas.
-- Vó, a mãe correu o mundo. Não sabe o que quer, ou melhor, sabe somente que não quer conviver com a gente.
-- Mas o importante minha filha, é que tu estás aqui. – Senti sua mão macia em cima da minha.
-- Sim e vim pra ficar Vó. Daqui não pretendo mudar mais.
-- Ai que bom meu amor!
-- Mas confesso que estava com medo da sua reação a me ver aqui.
-- Por quê? – seus olhos estavam arregalados me encarando.
-- Pelos acontecimentos, a maneira que saí sem dar nenhuma explicação, – respondi com a maior sinceridade.
-- Esqueceremos isso, minha filha, és minha neta e eu te amo acima de tudo. –- salientando essa última palavra, ainda com sua mão em cima da minha, seus olhos entraram nos meus tentando descobrir o que eu pensava. –- E não me importa se não és considerada normal. Para mim tu és normal. –- completou após uma pausa.
-- E Vó o que é ser normal? – analisando aquela senhora que desde a última vez que a tinha visto havia emagrecido uns bons 15 quilos.
-- Ah minha filha se relacionar com homens, formar uma família, casar, usar saia, brincos, esses penduricalhos –- falou segurando seus colares em meio a uma risada.
-- Mas Vó não sou muito fã de usar isso, não.
-- Eu sei, na verdade nunca foste. Desde pequena nunca quiseste sequer brincar com uma boneca, vivia na rua brincando com os meninos, para escovar o cabelo só se trocasse por bolinhas de gude, ... –- ria gostosamente.
-- Pois então vó tem coisas que não mudam.
-- Verdade minha filha.
-- Vó. –- ouvimos o grito vindo da sala.
-- Aqui na cozinha minha filha. – respondeu em resposta a minha irmã que correu ao seu encontro.
-- Mana! –- Berrou a me ver “nossa como adolescente gosta de gritar”. Um abraço apertado, lágrimas escorrendo pela face, beijos perdidos em todo o rosto daquela menina com corpo de mulher linda que só ela, alta, magra, cabelos negros compridos, olhos verdes, -- Que bom te ver. – comentou segurando meu rosto com suas duas mãos. Nossa realmente estava feliz por estar em família.

Naquele resto de dia as horas voaram, muitas conversas, falas altas, risadas, muitas novidades, muitas brincadeiras e muitos mimos a nossa matriarca que sorria de tudo incluindo do arroz queimado para o jantar.

Na hora de deitarmos vó mostrou a reforma feita na casa, que incluía a transformação do quarto dela em uma sala de estar que dava acesso ao andar superior, (coisa que não existia antes), onde havia mais uma sala muito confortável e quatro portas onde estavam os quartos.
-- Vó por que aumentaste tanto a casa?
-- Minha filha, só tenho vocês e meu sonho hoje está sendo realizado te ver aqui.
-- Em nossa casa né vó – cortou Isa.
-- Isso mesmo, nossa casa – se corrigiu- por isso a vó mandou construir esses quartos aqui, um pra casa uma todos mobiliados, arrumados.
-- É a vó manda a Luzia limpar todas as semanas.
-- Luzia? Vó você tem empregada agora?
-- Que nada minha filha, apenas uma mulher que vem aqui me ajudar. Mas entre venha ver o seu quarto. –- segurando minha mão mostrou a primeira porta em frente à escada.

Assim que abri, me deparei com um delicioso dormitório, uma cama imensa, coberta com uma colcha branca, cheia de almofadas vermelhas e douradas, no canto uma escrivaninha com livros de inglês da época que ainda morava aqui, na parede uma televisão de 14 polegadas, em cima da cama um quadro para pôr fotos, e na janela uma bela cortina bege de parede a parede, no canto uma porta marfim que, combinando com a cor de um roupeiro de oito portas, levava ao pequeno banheiro delicadamente decorado, com quadrinhos de flor e tudo.
-- Esse quarto é teu, minha filha. – falou minha bela veinha, me olhando com carinho enquanto eu olhava de boca aberta em todos os detalhes de cada canto que ela tinha preparado pra mim.
-- Vó é lindo demais! Pra quem estava pensando em dormir em um colchão na sala. Ganhei meu dia.
-- Colchão na sala? E lá eu sou mulher de deixar minha neta dormir na sala? – um beijo suave em meu rosto e uma mão firme em meu ombro.
Meus olhos estavam cheios de lágrimas, por me sentir uma privilegiada em fazer parte daquela família encantadora. Claro que faltava minha mãe, mas ela... Bem, ela era uma história a parte.
-- Agora deixaremos descansares, uma feliz noite minha filha e não tenha hora para acordar amanhã. – Disse beijando mais uma vez meu rosto e saindo com Isa.
Fiquei ali apaixonada pelo meu novo canto, sentei na cama e pude sentir a maciez do colchão.

Deitada, mal conseguia pensar, somente agradecer a Deus tudo que tinha recebido até ali.

Adormeci.

Quando acordei já passava das dez, minha avó estava em volta das panelas, o cheiro delicioso de charque exalava pela casa.
-- Bom Dia minha bela adormecida.
-- Bom dia minha delícia. – dei-lhe um beijo em sua têmpora.
-- Tem café na térmica e um misto dentro da torradeira, só precisa ligar na tomada.
-- Nossa vó olha que eu fico mimada hein.
-- Mas pra que serve uma avó senão mimar as netas lindas?
-- Por falar em neta vó, por onde anda Isa?
-- Essa já foi pra escola, volta só à tardinha.
-- Por que só à tarde?
-- Depois da aula ela almoça na casa do namorado, depois tem inglês e termina o dia na natação.
-- Dia cheio vó.
-- Todos os dias.
-- Pago pra ela três línguas diferentes, duas academias, não quero adolescentes parada em casa não. Ela tem que ocupar os dias pra não pensar em besteira, não pensar em drogas, e se preparar pra vida.
-- Mas vó de onde vem esse dinheiro todo?
-- Dos alugueis das garagens aqui ao lado. Há dois anos tua mãe mandou um dinheiro grande e disse pra investir  na educação da Isabella. Isso que eu fiz, comprei o terreno ao lado, desmanchei a casa, e construí uma garagem coletiva.
-- E por que não me contaste isso, Vó?
-- Porque ela pediu, ela não quer que te ajude em nada.
Parei de tomar meu café e olhei pra ela. Sem consegui soltar uma palavra.
-- Mas eu não vou deixar uma neta minha passar trabalho. O que é meu é teu minha filha.
-- Mas por que ela pensa assim? – única coisa que me atrevi a perguntar.
-- Porque ela não concorda com a vida que levas, ela nunca gostou daquela mulher que te tirou daqui. Como era mesmo o nome dela?
-- Sandra.
-- Essa mesma. Tua mãe a odeia, por um momento até odiei, e hoje eu não sei o que faria se a encontrasse.
-- Então também odeias.
-- Sei que ela veio contigo minha filha, por isso peço que não a tragas aqui. O que fizeres pela rua, não me interessa, mas essa mulher aqui dentro eu não quero. -– Disse despejando os temperos delicadamente cortados na panela.
-- Vó. Não verás mais a Sandra. Ela ficou no exterior. Não estamos mais juntas desde o primeiro mês que pisamos na Nova Zelândia.
-- E o que ficaste fazendo lá?
-- Ah vó. Tinha visto por um ano, não iria desperdiçar a oportunidade de estudar e trabalhar em uma cidade diferente por causa dela. Vivi a minha vida. Conheci muitas pessoas, mas não me relacionei mais com nem uma.
-- Mas nem uns beijinhos na boca Clau? – perguntou sentando a minha frente ao redor da mesa.
-- Vó?! – falei espantada com seu comentário.
-- Verdade minha filha. Tu és jovem, bonita tem que namorar. Ainda mais agora que eu sei que não pretendes sair mais daqui. Aceito qualquer coisa, menos pessoas que te tirem do meu lado.
-- Ninguém mais me tirará daqui. – pus minha mão em cima dela.
-- Então minha filha, nem um beijinho? – perguntou com ar de safada.
-- Nada vó. Ela foi a última pessoa da minha vida.
-- Tem quase um ano que tu não beija na boca?
-- Isso mesmo.
-- Nossa ate minha vida sexual aos 65 anos é mais ativa que a tua que tem 32. – brincou em tom de reprovação olhando a panela que fritava os temperos.
-- Vó, tenho 33 anos.
-- Mesma coisa. Minha vida sexual não diminuiu com a tua mudança de idade. –- comentou as gargalhadas.
Ali ficamos conversando e rindo, quer dizer quem mais ria era eu, por estar toda feliz em saber das perspicácias dela. Entre elas a mais legal é que toda a quarta feira avó ia ao baile da terceira idade dançar com seu namorado. Um advogado aposentado de 63 anos, e chegava em casa com o cabelo molhado de suor.

Pouco tempo antes de ela arrumar a mesa para nosso almoço, subi até o meu quarto abri as cortinas e me deparei com uma porta imensa que levava a uma sacada cheia de plantas.
A vista dali era simples, um pedaço de rua, onde carros passavam apressadas, pessoas tentando atravessar na faixa de pedestre, alguns telhados e a esquina em que ficava o pet shop, aquele mesmo que vi a menina do sorriso bonito. “Quando será que ela vai aparecer ali de novo?” pensei “Sossega Claudia Carolina. Vida nova e nessa vida não tem lugar para namorar, precisas mesmo é de um trabalho.” Com este pensamento fui pro banho

***

Colocando os pratos na pia, vó me pediu para que eu fosse ao pet comprar ração para o Baruque. (o cachorro Rottweiler, lindo que ficava no quintal e que por sorte percebeu o quanto amo cachorros, e sequer me estranhou), assim que lavei a louça, fui comprar a ração dele. Entrando no pet vi a mulher do sorriso bonito no caixa. Toda atrapalhada falando com um representante e ao mesmo tempo conferindo mercadorias que tinham acabado de chegar. Eram caixas, saches e escovas por todos os lados. Como era horário de meio dia tinha apenas um funcionário atendendo, havia três pessoas na minha frente. E ao invés de analisar a loja fiquei apenas observando a bela mulher trabalhando distraidamente. Era realmente muito linda. Usava uma blusa azul gola canoa, que deixava seu ombro de fora, um colar de corda com uma pedra da mesma cor, mas tonalidade mais fraca, e nas mãos unhas delicadamente pintadas de branco, pulseira de corda, um relógio grande no pulso, cabelo castanho encaracolado comprido solto e muito brilhoso, mas para minha tristeza uma aliança imensamente grossa e dourada na mão esquerda.

Estava com dinheiro pra comprar um saco de ração com no mínimo dez quilos, mas pensando em retornar outras vezes decidi comprar apenas dois, assim precisaria freqüentar aquele estabelecimento diversas vezes na semana.
Quando fui atendida por ela não pude deixar de sorrir e olhar com firmeza em seus belos olhos castanhos. Mesmo com um balcão que nos separava podia sentir dali o cheiro de seu perfume, seu sorriso era branco como neve, mas pena que não foi direcionado pra mim, somente para a cliente que estava em minha frente para também pagar sua mercadoria. Na minha vez ela se fechou em copas. Seu semblante ficou pesado, mas mesmo assim lindo.

Saí dali rindo sozinha. Mordendo o lábio inferior e pensando em como seria ouvir a voz dela falando delicadamente comigo. Seu cheiro ficou em minhas narinas e seu jeito de trabalhar em minha lembrança.

***

Quando cheguei em casa, consegui convencer minha avó que não precisaríamos comprar ração em saco grande, que de pequenas porções seria mais fácil, mesmo ela dizendo que comprando em maior quantidade a Dani sempre fazia um desconto pra ela.

“Dani, então quer dizer que este é o nome dela. Belíssimo nome.”

***

Mal esperei o dia seguinte para poder comprar mais ração para o Baruque.

***

E assim ia todos os dias, no mesmo horário, próximo ao meio dia, pois sabia que havia somente um funcionário na loja assim poderia ficar um pouquinho mais observando ela que me olhava de forma encantadoramente encabulada.

Mas o bom é que olhava, o que chateava era que não abria um sorriso pra mim, na verdade sequer me cumprimentava direito.  

Além de ir a seu trabalho também a observava durante horas pela sacada. Ali via todos os seus passos e através da minha avó fiquei sabendo que ela era casada com um homem, não tinha filhos, e que final de semana não aparecia na loja, sua mãe, uma mulher muito distinta e linda como ela, assumia o comércio para a filha ter uma folga ao lado do marido. (eca)

Dias depois, para minha tristeza vi minha avó, que ia todos os dias na loja conversar com ela, chegar com um funcionário de Dani trazendo um saco imenso de ração pro Baruque, aquela cena detonou com o meu maior entretenimento, que era alimentar meus olhos com aquela beldade, que não era um símbolo sexual, mas era linda demais, pele queimada do sol marca do biquíni, ta certo tinha uns quilinhos a mais... E falando abertamente era isso que me encantava. Na verdade nunca me interessei por mulher muito magra, sempre admirei as femininas e normais, sabe aquelas com peito, bunda, coxas grossas... Manequim 44 esse era o meu numero preferido, de magérrima já bastava eu, que era um saco de ossos, ombros largos, exercitados por anos de natação.

***

No dia que não precisaria comprar ração pro nosso pequeno morador do quintal me restou apenas ficar cuidando pela sacada, sou distraidamente chamada pela minha avó que está no andar inferior.

-- Clau, telefone.

 Atendendo apressadamente ouvi a voz rouca de uma mulher aparentando pouca idade me chamando para uma entrevista de emprego, no dia seguinte em uma escola de línguas, algumas quadras dali.

Aceito o convite, sonhando com meu novo emprego, adormeci e sonhei com a bela Dani. O Sonho? Não lembro, mas pelo calor que acordei foi bom demais e não foi nem um pouco ingênuo.

 No horário marcado estava em frente ao diretor da famosa escola, trajava uma calça social azul e uma camisete com listras finas da mesma cor, um sapato de salto alto, da época em que freqüentava bons lugares com Sandra, apesar de bem arrumada me sentia uma Drag Queen. Aquele não fazia o meu estilo. Não mesmo.

A entrevista durou mais que o previsto, o gerente felizmente gostou de mim me informando que poderia começar na próxima segunda. Sinceramente fiquei maravilhada com a idéia, já que era recém quarta, então teria mais uns dias para me organizar e fazer os exames necessários.

Quando saí da escola liguei celular e para minha surpresa havia mais de oito ligações da minha avó, abalada e pensando no pior percebi que também havia uma mensagem dela:  
"Clau, a vó precisou sair,
mas a chave está aqui no pet com a Dani,
Procure chegar antes das 7,
Beijos da vovó."

Nossa terei que ir à loja da Dani, mal sabe minha avó que é a melhor notícia que poderia ter me dado. Antes mesmo de pensar em mais alguma coisa senti meu celular vibrando, número residencial e desconhecido. Atendi pensando ser do meu emprego, mal podia imaginar que já estava empregada.
-- Alô.
-- Clau, filha?
-- Oi vó, aconteceu alguma coisa?
-- Não filha, mas a vó quer que tu venhas aqui pegar a chave da Dani, e entregue pra Isa, assim que ela chegar, que a vo quando chegar pega a chave.
-- Vó pegar a chave da Dani? Chave de onde?
-- Pera aí filha fala aqui com ela -– disse deixando o fone mudo por alguns segundos.
-- Oi – ouvi uma delicada voz, na hora associei a bela morena fofinha que está tirando o meu sono, e me fazendo sonhar coisas impróprias quando consigo dormir.
-- Oie – falei som um sorriso bobo nos lábios e um arrepio pelo corpo.
-- Tudo bem? – nossa ela quer saber como estou.... Será que posso dizer melhor agora que estou falando com ela?
-- Tudo e com você? – diz que não e pode me contar toda tua vida... Tenho todo o tempo do mundo pra ouvir a tua voz.
-- Tudo. Então Clau, perdão chamá-la assim, mas sua avó fala tanto em ti, que já me sinto autorizada a também me dirigir a ti pelo seu apelido. 
-- Sem problemas, Soa muito bem em sua voz. – principalmente se for na hora H.
-- Então tu sabes que hoje é quarta feira e tua avó tem o baile da melhor idade, que já está acontecendo, só que como tu não tens a chave ela precisa deixar aqui, por que o baile só acaba as 20h:30min e com certeza será nesse horário que ela sairá do salão. Portanto, há necessidade de que tu passes por aqui, pegue a chave dela antes de eu fechar a loja, e fique na sala aguardando por ela, já que a campainha da casa de vocês queimou hoje cedo.
-- Hum ok! Tudo entendido. Pode deixar que estou indo pegar a chave.
-- OK! Te aguardo.
-- Beijo. – tomei a liberdade em falar.
-- Beijo até daqui a pouco.

Nossa ela me disse beijo. Não entendi nada do que ela disse, mas sei que preciso passar na loja e vê-la de pertinho, só espero que dessa vez ela seja um pouco mais simpática.

Acho que posso fazer um charminho demorar um pouco e comemorar que a partir de segunda terei um novo trabalho, o meu dinheiro, a minha vida. Mereço até uma cerveja.

Sentada em um bar, bebendo a gelada e fumando meu cigarro, vejo meu celular vibrar, “oba deve ser Dani de novo perguntando o porquê de eu estar demorando!”  pensei rindo da minha viagem. Era da escola pedindo para que eu retornasse por que não me passaram os horários. Puta merda. Logo agora que estou relaxando e comemorando? Não poderia ser depois não? Eu chego lá pela manhã e vejo o meu horário. Simples assim, afinal é tudo tão perto de casa.  Mas retornei em seguida, só que dessa vez fedendo a boteco.

Se arrependimento matasse estava morta. Mais uma hora para esperar o diretor me atender e me passar o horário. Bom que o cheiro a cigarro e o gosto da bebida já tinha saído de mim, ao menos eu não sentia mais.

Só consegui chegar à loja três horas depois da ligação, mas valeu à pena. Quando cheguei pude observar ela atendendo a clientes, um a um demorando um pouco, pois era simpática com todos, e eu parada na porta apenas sendo analisada por um dos seguranças, analisava cada movimento dela, suas unhas estavam pintadas de vermelho, um vermelho vivo, apesar de curtas ficaram lindas. O cabelo solto mais brilhante que o sol, na orelha uma argola de ouro, no corpo uma blusa vermelha novamente do mesmo modelo que deixava seu ombro a mostra, se ela soubesse o quanto admiro um ombro ela não me provocaria tanto. O perfume dela veio de novo e a voz dela com seus clientes era suave, fazia um bem danado ao meu sentido da audição. Poderia ficar horas e mais horas a ouvindo falar. No pescoço usava uma corrente de ouro com um pingente em forma de pingo, realmente muito linda.
-- Oi. O que seria para ti?  – dirigiu a mim com um sorriso de leve no rosto.

-- Oi. Hoje não comprarei nada, apenas quero a chave da vó Maria. – pedi já enxergando a chave ao lado do telefone.

-- Ah. Tu que és a neta dela? – perguntou procurando a chave atrás do balcão.

-- Sim. – confirmei analisando cada movimento –- Veja se não é aquela ali. -– falei apontando pra chave que eu já tinha visto desde o primeiro momento.

-- Ah sim. – pegou o molho e pôs em cima da mesa. Sem conseguir perder a oportunidade pus minha mão em cima da dela. Assim que senti o toque de sua pele senti meu corpo inteiro estremecer, um calor imenso da cintura pra baixo e pude perceber o olhar dela no meu decote antes de fixar nos meus olhos.

Infelizmente fui acordada daquele momento com um homem parado a porta. Sem reação apenas agradeci, pedi licença a ele e sai às pressas pro carro. Pensando em tudo, revivendo cada momento daquele dia que tinha sido mais que especial
.
“Ela gosta de mim!” era o que pensava enquanto ria sozinha.

Um comentário:

Real Time Analytics