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sexta-feira, 5 de abril de 2019

CAPITULO IX



A noite de sábado e o domingo foi pequeno para o nosso desejo. Namoramos, brincamos sem pensar em nada até o casal de caseiros retornarem da cidade.

Dani e eu nos acarinhávamos no sofá quando o barulho de seu carro ecoou pela casa fazendo com que ela em um único salto fosse parar próxima a porta para recebê-los.

-- Jandira. E daí como foi na casa da filha? – perguntou com a maior cara deslavada sentada no outro canto do sofá fingindo estar olhando televisão.

-- Perfeito Dani. – disse ela carregando umas sacolas para dentro de casa. – as crianças estão enormes.

-- E por que não ficaram mais? Chegaram cedo.

-- Por que Tião cismou que poderias estar entediada de estar aqui no meio do mato, não quis abusar por estar com o teu carro. – afirmou – mas e vocês já almoçaram? – perguntou olhando para a cozinha onde a louça de ontem a noite ainda descansava na pia.

-- Nem esquenta Jandira. Acordamos tarde, tomamos um reforçado café da manhã. – tomei a liberdade em comentar.

-- Mas jamais sairão daqui sem comer nada de sal. – disse já mexendo nas panelas pensando no que iria fazer.

-- Não precisa Jandira. Estamos bem alimentadas. Obrigada mesmo. – disse Dani indo ao seu lado. – e também daqui a pouco estaremos indo pra cidade.

-- Oie.- cumprimentou Sebastião assim que entra em casa.

-- Nossa por onde andavas homem? – Dani o abraçou.

-- lavando o carro. Sabe que na Ana a areia vermelha pega.

-- Mas não precisava.

-- Precisava sim minha boneca. – disse beijando sua testa.

-- E pode sentar! – ordenou Jandira. – daqui vocês não sairão sem comer minha comida. – brincou.

-- Ta bom! Mas vê se não demora! – brincou também Dani.

 O Final da tarde se resumiu a conversa agradável entre nós quatro. Os dois mostraram uma simpatia absurda, brincaram, sorriam, cotavam causos do tempo em que Dani era criança, falaram de Deus e do mundo até as sete da noite, quando Dani chamou o barqueiro para atravessarmos o canal e retornássemos pra casa.

A mata que limitava nosso caminho não era mais tão assustadora como na vinda. Dani dirigia lentamente como se estivesse contemplando cada árvore.

-- Tinha esquecido como amo esse lugar! – disse entre pensamentos.

-- Realmente ele é lindo. Mas por que não vens mais vezes?

-- Até uns dez anos atrás vínhamos quase todo final de semana, mas daí descobri como meu pai conseguiu adquirir isso aqui senti nojo, não me sentia mais bem aqui.

-- Hummm. – sem entender nada.

-- Essa ilha tem dois donos, meu pai e seu sócio. – disse parando na bifurcação. – essa outra estrada leva até a chácara dele.

-- E quem é?

-- Um advogado tão sujo como meu pai, escória da sociedade, ... Ai odeio ele! Esse homem envolveu meu pai em uma trama de lama, corrupção, falcatrua. E o pior eles estão se dando bem! Ou melhor, se deram, por que tem uns três anos que os dois já se aposentaram, enriqueceram de maneira ilícita. – falou com dor na voz – mas quem sou eu para denunciar? Como cidadã poderia, mas e como filha? Meus irmãos e eu não temos coragem de falar nada. Apenas nos separamos, ele casou de novo com uma menina de 23 anos. Acha que esta arrasando, mal ele sabe que ela só quer a grana dele. Mas ele tem que aprender. Deixa ele viver a vida dele e nós vivemos a nossa.

Na balsa saímos do carro, por do sol era a moldura alaranjada daquela beleza com os cabelos ao vento. O céu tinha tons de cor de rosa, a brisa suave arejava nossa pele, e o meu desejo por ela aumentava a cada segundo que sentia seu cheiro.

-- Nosso final de semana foi incrível. – comentei assim que entramos no carro novamente e dirigíamos ate minha casa.

-- Realmente, fantástico. Poderemos repeti-lo mais vezes se tu quiseres.

-- Você sabe que sempre estarei disponível, basta um chamado seu. Não tenho compromisso nenhum a não ser com a escola. – falei querendo dizer na verdade que a única comprometida ali era ela.

-- Sim. Mas e Manu? – perguntou parada no semáforo já na esquina de casa.

-- Manu uma mulher interessante, mas que não falo com ela desde domingo na tua casa. Não tenho o numero dela, ela não tem o meu.

-- Não mente Claudia. – falou em tom áspero

-- Não estou mentindo. Ela não tem meu numero. – falei sinceramente.

-- Não? E quarta feira quando estavas fazendo o café, era ela quem estava te ligando. Lembra que eu vi?

-- Ah é? Mas como será que ela sabe meu numero?

-- Adivinhar ela não pode ter adivinhado. Foste tu quem deu a ela. E depois ainda mente dizendo que não deste.

-- Dani, eu não passei meu número a ela. Não sei como ela sabe, nem lembrava que ela tinha ligado, não retornei sua ligação tanto que fui à tua casa mais tarde. – falei quase implorando que ela acreditasse na verdade.

-- Sei.

-- Vai descer? – perguntei abrindo a porta do carro com minha mochila nas mãos. – Desce! – implorei.

Sem dizer uma palavra Dani abriu a porta e saiu, deixando tudo dentro do carro, soou o alarme e entrou junto comigo.

-- Oie. – berrou já no corredor com a maior intimidade.

-- Dani minha filha, estou aqui na cozinha. – berrou também minha veia achando graça da atitude dela.

-- Ola Dª Maria. – beijou carinhosamente sua face.

-- Oi vó. – beijei em seguida.

-- Oi meus amores. E como estava no lugar misterioso? – rindo perguntou.

-- Uma delicia vó.

-- Maravilhoso Dª Maria. Tinha muito tempo que não ia lá. – falou Dani sentando em sua frente.

-- E onde é?

-- Em uma ilha vó. Linda demais.

Vó Maria arregalou os olhos - - Então é verdade? – se dirigiu à Dani.

-- O que Dª Maria?

-- A história da ilha que foi notícia há mais de 25 anos? – perguntou ela me deixando sem entender nada.

-- É. Meu pai tem uma ilha. Comprada com dinheiro sujo, se é que foi comprada. – falou Dani com cara de poucos amigos.

-- Misericórdia!.... Mas cada um sabe de si. – abismada e ao mesmo tempo sem querer julgar vó Maria mudou de assunto. – Mas vocês já jantaram?

-- Já Vó. Jandira fez um jantar maravilhoso. E não nos deixava parar de comer.

-- Jandira sempre foi assim. Em uma semana com ela tu chegas a cem quilos brincando. Não sei como Tião é magro. – brincou Dani.

-- Filha esqueceste teu celular. Tocou o final de semana inteiro.

-- Sério? E quem era? – perguntei.

-- A vó não viu. Tentei desligar não consegui, Isa não estava em casa, tive que esconder o bicho na sala da frente em baixo de uma almofada.

-- E onde foi Isa? – perguntei estranhando a liberdade que minha irmã esta tomando.

-- Na casa do namorado. Mas acho que ela não esta muito encantada por ele não. Ontem demorou um tempão pra sair, e saiu emburrada de casa não querendo ir passar o final de semana com ele. Daqui a pouco está chegando.

-- E não vais pegar teu celular? – perguntou Dani.

-- Estou indo. – fui até a sala com ela atrás de mim.

Assim que achei o celular havia mais de 50 ligações de um numero desconhecido.

-- Não sei quem é. – mostrei o celular a ela,

-- Manu. – emburrou.

-- Manu? Mais tarde eu ligo.

Dani pegou o celular e começou a ver as mensagens.

-- Oi amor, estou indo pra RG. To com saudade.

Recebida: sab 25-nov-06 – 09h:21

-- Ainda dormindo minha linda?

Recebida: sab 25-nov-06 – 11h:43

-- Estou na casa da Dani.

Recebida: sab 25-nov-06 – 12h:50

-- Venha assim que acordares. Os meninos querem te conhecer.

Recebida: sab 25-nov-06 – 13h:43

 -- Os meninos que ela fala são meu irmão e meu cunhado?

-- Não sei.

-- Ow Cacau, fazer birra não faz teu tipo, O que está acontecendo?

Recebida: sab 25-nov-06 – 15h:01

-- Nossa, mas ainda tem dezesseis mensagens não lidas, - abismou Dani – Ela passou o tempo inteiro te mandando mensagem. – completou com voz tensa.

-- Dani, teu celular está tocando! – Vó Maria berrou da cozinha.

Fazendo com que ela corresse para atender, me deixou ali com o celular em mãos.

--Oi.. estou no centro ... na ilha ... não vou demorar ... quando chegaste? ... humm ... Estou no centro Toni. Já estou indo pra casa. – fechou o telefone encerrando a ligação.

-- Beijo Dª Maria. – despediu-se da vó.

-- Tchau Claudia. – parando em minha frente analisando se não havia ninguém perto beijou delicadamente meus lábios. – Amei o final de semana! – disse sorrindo fazendo com que seu hálito entrasse em minha boca.

-- Eu também. – sussurrei.

-- Mas não gostei das mensagens da Manu. – o tom áspero voltou a aparecer.

-- E eu do telefonema. Acho que estamos quites. – séria respondi.

-- Ponto pra ti. – disse antes de mais uma vez encostar rapidamente seus lábios aos meus e correr em direção ao carro.



 ***



Sem reação sentei-me no sofá com o celular nas mãos, pensando em tudo o que tinha acontecido, para onde ela estava indo naquele momento, o que ela faria naquela noite com o marido, nas ligações de Manu.

-- Filha. – disse vó sentando ao meu lado.

-- Oi.

-- O que houve? Estás assim pelo telefonema do marido dela? – perguntou colocando sua mão em cima da minha.

-- É. Difícil essa situação Vó. Acho que não vou saber lidar com ela não.

-- Complicado eu sei que é. Mas não sei te aconselhar nesse momento.

-- E também né Vó se conselho fosse bom seria vendido.

-- Isso mesmo. A única coisa que te poderia dizer é que dê tempo ao tempo.

-- Tem que ser assim mesmo. Viver um dia de cada vez.

-- Mas me conta como é essa tal ilha? – perguntou sussurrando como se fizesse fofoca.

-- Linda! Perto daqui. A casa é incrível. Dois andares, natureza pura. Tudo de ultima geração, uma casa auto-sustentável. A água do chuveiro, da maquina de lavar vai pra um reservatório que serve pra limpar o quintal, no fundo tem outro reservatório que é aberto para captar água da chuva e essa mesma água serve pra tomar banho. Olha Vó não sei nem explicar. A piscina é térmica, um dos quartos, o que ficamos, tem teto solar, dá pra abrir em noite quente; dormimos olhando as estrelas.

-- Tudo dinheiro público filha.

-- Olha de onde veio não sei. Só sei que é linda, bem decorada, extremamente confortável, muito boa mesmo Vó.

-- Mas tudo de falcatrua Claudia.

-- Olha, acredito que aqui se faz aqui se paga. Se ele é feliz ou não ninguém sabe, nem mesmo Dani que não o vê há mais de dois anos. Mas as coisas acontecem na hora certa Vó. Não somos ninguém para julgá-los. Deus sabe de tudo e sabe o que fazer.

-- Verdade. – disse após um longo suspiro. – Mas que tal um banho e um filme com tua velha?

-- Convite irrecusável. – sorri.

***

Pouco depois Isa chegou com toda carência do mundo, recebendo bajulações da Vó e de mim acabou adormecendo entre nós duas.

***

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