A noite
de sábado e o domingo foi pequeno para o nosso desejo. Namoramos, brincamos sem
pensar em nada até o casal de caseiros retornarem da cidade.
Dani e
eu nos acarinhávamos no sofá quando o barulho de seu carro ecoou pela casa
fazendo com que ela em um único salto fosse parar próxima a porta para recebê-los.
--
Jandira. E daí como foi na casa da filha? – perguntou com a maior cara
deslavada sentada no outro canto do sofá fingindo estar olhando televisão.
--
Perfeito Dani. – disse ela carregando umas sacolas para dentro de casa. – as
crianças estão enormes.
-- E
por que não ficaram mais? Chegaram cedo.
-- Por
que Tião cismou que poderias estar entediada de estar aqui no meio do mato, não
quis abusar por estar com o teu carro. – afirmou – mas e vocês já almoçaram? –
perguntou olhando para a cozinha onde a louça de ontem a noite ainda descansava
na pia.
-- Nem
esquenta Jandira. Acordamos tarde, tomamos um reforçado café da manhã. – tomei
a liberdade em comentar.
-- Mas
jamais sairão daqui sem comer nada de sal. – disse já mexendo nas panelas
pensando no que iria fazer.
-- Não
precisa Jandira. Estamos bem alimentadas. Obrigada mesmo. – disse Dani indo ao
seu lado. – e também daqui a pouco estaremos indo pra cidade.
--
Oie.- cumprimentou Sebastião assim que entra em casa.
--
Nossa por onde andavas homem? – Dani o abraçou.
--
lavando o carro. Sabe que na Ana a areia vermelha pega.
-- Mas
não precisava.
--
Precisava sim minha boneca. – disse beijando sua testa.
-- E
pode sentar! – ordenou Jandira. – daqui vocês não sairão sem comer minha
comida. – brincou.
-- Ta
bom! Mas vê se não demora! – brincou também Dani.
O Final da tarde se resumiu a conversa agradável
entre nós quatro. Os dois mostraram uma simpatia absurda, brincaram, sorriam,
cotavam causos do tempo em que Dani era criança, falaram de Deus e do mundo até
as sete da noite, quando Dani chamou o barqueiro para atravessarmos o canal e
retornássemos pra casa.
A mata
que limitava nosso caminho não era mais tão assustadora como na vinda. Dani
dirigia lentamente como se estivesse contemplando cada árvore.
--
Tinha esquecido como amo esse lugar! – disse entre pensamentos.
--
Realmente ele é lindo. Mas por que não vens mais vezes?
-- Até
uns dez anos atrás vínhamos quase todo final de semana, mas daí descobri como
meu pai conseguiu adquirir isso aqui senti nojo, não me sentia mais bem aqui.
--
Hummm. – sem entender nada.
-- Essa
ilha tem dois donos, meu pai e seu sócio. – disse parando na bifurcação. – essa
outra estrada leva até a chácara dele.
-- E
quem é?
-- Um
advogado tão sujo como meu pai, escória da sociedade, ... Ai odeio ele! Esse
homem envolveu meu pai em uma trama de lama, corrupção, falcatrua. E o pior
eles estão se dando bem! Ou melhor, se deram, por que tem uns três anos que os
dois já se aposentaram, enriqueceram de maneira ilícita. – falou com dor na voz
– mas quem sou eu para denunciar? Como cidadã poderia, mas e como filha? Meus
irmãos e eu não temos coragem de falar nada. Apenas nos separamos, ele casou de
novo com uma menina de 23 anos. Acha que esta arrasando, mal ele sabe que ela
só quer a grana dele. Mas ele tem que aprender. Deixa ele viver a vida dele e
nós vivemos a nossa.
Na
balsa saímos do carro, por do sol era a moldura alaranjada daquela beleza com
os cabelos ao vento. O céu tinha tons de cor de rosa, a brisa suave arejava
nossa pele, e o meu desejo por ela aumentava a cada segundo que sentia seu
cheiro.
--
Nosso final de semana foi incrível. – comentei assim que entramos no carro
novamente e dirigíamos ate minha casa.
--
Realmente, fantástico. Poderemos repeti-lo mais vezes se tu quiseres.
-- Você
sabe que sempre estarei disponível, basta um chamado seu. Não tenho compromisso
nenhum a não ser com a escola. – falei querendo dizer na verdade que a única
comprometida ali era ela.
-- Sim.
Mas e Manu? – perguntou parada no semáforo já na esquina de casa.
-- Manu
uma mulher interessante, mas que não falo com ela desde domingo na tua casa.
Não tenho o numero dela, ela não tem o meu.
-- Não
mente Claudia. – falou em tom áspero
-- Não
estou mentindo. Ela não tem meu numero. – falei sinceramente.
-- Não?
E quarta feira quando estavas fazendo o café, era ela quem estava te ligando.
Lembra que eu vi?
-- Ah
é? Mas como será que ela sabe meu numero?
--
Adivinhar ela não pode ter adivinhado. Foste tu quem deu a ela. E depois ainda
mente dizendo que não deste.
-- Dani,
eu não passei meu número a ela. Não sei como ela sabe, nem lembrava que ela
tinha ligado, não retornei sua ligação tanto que fui à tua casa mais tarde. –
falei quase implorando que ela acreditasse na verdade.
-- Sei.
-- Vai
descer? – perguntei abrindo a porta do carro com minha mochila nas mãos. –
Desce! – implorei.
Sem
dizer uma palavra Dani abriu a porta e saiu, deixando tudo dentro do carro,
soou o alarme e entrou junto comigo.
-- Oie.
– berrou já no corredor com a maior intimidade.
-- Dani
minha filha, estou aqui na cozinha. – berrou também minha veia achando graça da
atitude dela.
-- Ola
Dª Maria. – beijou carinhosamente sua face.
-- Oi
vó. – beijei em seguida.
-- Oi
meus amores. E como estava no lugar misterioso? – rindo perguntou.
-- Uma
delicia vó.
--
Maravilhoso Dª Maria. Tinha muito tempo que não ia lá. – falou Dani sentando em
sua frente.
-- E
onde é?
-- Em
uma ilha vó. Linda demais.
Vó
Maria arregalou os olhos - - Então é verdade? – se dirigiu à Dani.
-- O
que Dª Maria?
-- A
história da ilha que foi notícia há mais de 25 anos? – perguntou ela me
deixando sem entender nada.
-- É.
Meu pai tem uma ilha. Comprada com dinheiro sujo, se é que foi comprada. –
falou Dani com cara de poucos amigos.
--
Misericórdia!.... Mas cada um sabe de si. – abismada e ao mesmo tempo sem
querer julgar vó Maria mudou de assunto. – Mas vocês já jantaram?
-- Já
Vó. Jandira fez um jantar maravilhoso. E não nos deixava parar de comer.
--
Jandira sempre foi assim. Em uma semana com ela tu chegas a cem quilos
brincando. Não sei como Tião é magro. – brincou Dani.
--
Filha esqueceste teu celular. Tocou o final de semana inteiro.
--
Sério? E quem era? – perguntei.
-- A vó
não viu. Tentei desligar não consegui, Isa não estava em casa, tive que
esconder o bicho na sala da frente em baixo de uma almofada.
-- E
onde foi Isa? – perguntei estranhando a liberdade que minha irmã esta tomando.
-- Na
casa do namorado. Mas acho que ela não esta muito encantada por ele não. Ontem
demorou um tempão pra sair, e saiu emburrada de casa não querendo ir passar o
final de semana com ele. Daqui a pouco está chegando.
-- E
não vais pegar teu celular? – perguntou Dani.
--
Estou indo. – fui até a sala com ela atrás de mim.
Assim
que achei o celular havia mais de 50 ligações de um numero desconhecido.
-- Não
sei quem é. – mostrei o celular a ela,
--
Manu. – emburrou.
--
Manu? Mais tarde eu ligo.
Dani
pegou o celular e começou a ver as mensagens.
-- Oi
amor, estou indo pra RG. To com saudade.
Recebida:
sab 25-nov-06 – 09h:21
--
Ainda dormindo minha linda?
Recebida:
sab 25-nov-06 – 11h:43
--
Estou na casa da Dani.
Recebida:
sab 25-nov-06 – 12h:50
--
Venha assim que acordares. Os meninos querem te conhecer.
Recebida:
sab 25-nov-06 – 13h:43
-- Os meninos que ela fala são meu irmão e meu
cunhado?
-- Não
sei.
-- Ow
Cacau, fazer birra não faz teu tipo, O que está acontecendo?
Recebida:
sab 25-nov-06 – 15h:01
--
Nossa, mas ainda tem dezesseis mensagens não lidas, - abismou Dani – Ela passou
o tempo inteiro te mandando mensagem. – completou com voz tensa.
--
Dani, teu celular está tocando! – Vó Maria berrou da cozinha.
Fazendo
com que ela corresse para atender, me deixou ali com o celular em mãos.
--Oi..
estou no centro ... na ilha ... não vou demorar ... quando chegaste? ... humm
... Estou no centro Toni. Já estou indo pra casa. – fechou o telefone
encerrando a ligação.
--
Beijo Dª Maria. – despediu-se da vó.
--
Tchau Claudia. – parando em minha frente analisando se não havia ninguém perto
beijou delicadamente meus lábios. – Amei o final de semana! – disse sorrindo
fazendo com que seu hálito entrasse em minha boca.
-- Eu
também. – sussurrei.
-- Mas
não gostei das mensagens da Manu. – o tom áspero voltou a aparecer.
-- E eu
do telefonema. Acho que estamos quites. – séria respondi.
--
Ponto pra ti. – disse antes de mais uma vez encostar rapidamente seus lábios
aos meus e correr em direção ao carro.
***
Sem
reação sentei-me no sofá com o celular nas mãos, pensando em tudo o que tinha
acontecido, para onde ela estava indo naquele momento, o que ela faria naquela
noite com o marido, nas ligações de Manu.
--
Filha. – disse vó sentando ao meu lado.
-- Oi.
-- O
que houve? Estás assim pelo telefonema do marido dela? – perguntou colocando
sua mão em cima da minha.
-- É.
Difícil essa situação Vó. Acho que não vou saber lidar com ela não.
--
Complicado eu sei que é. Mas não sei te aconselhar nesse momento.
-- E também
né Vó se conselho fosse bom seria vendido.
-- Isso
mesmo. A única coisa que te poderia dizer é que dê tempo ao tempo.
-- Tem
que ser assim mesmo. Viver um dia de cada vez.
-- Mas
me conta como é essa tal ilha? – perguntou sussurrando como se fizesse fofoca.
--
Linda! Perto daqui. A casa é incrível. Dois andares, natureza pura. Tudo de
ultima geração, uma casa auto-sustentável. A água do chuveiro, da maquina de
lavar vai pra um reservatório que serve pra limpar o quintal, no fundo tem
outro reservatório que é aberto para captar água da chuva e essa mesma água
serve pra tomar banho. Olha Vó não sei nem explicar. A piscina é térmica, um
dos quartos, o que ficamos, tem teto solar, dá pra abrir em noite quente;
dormimos olhando as estrelas.
-- Tudo
dinheiro público filha.
-- Olha
de onde veio não sei. Só sei que é linda, bem decorada, extremamente confortável,
muito boa mesmo Vó.
-- Mas
tudo de falcatrua Claudia.
--
Olha, acredito que aqui se faz aqui se paga. Se ele é feliz ou não ninguém
sabe, nem mesmo Dani que não o vê há mais de dois anos. Mas as coisas acontecem
na hora certa Vó. Não somos ninguém para julgá-los. Deus sabe de tudo e sabe o
que fazer.
-- Verdade.
– disse após um longo suspiro. – Mas que tal um banho e um filme com tua velha?
--
Convite irrecusável. – sorri.
***
Pouco
depois Isa chegou com toda carência do mundo, recebendo bajulações da Vó e de
mim acabou adormecendo entre nós duas.
***
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